The Inner World of VALENTINA 170167

I – Valentina 170167

 

Não se lembra de quando começou a construir a arquitectura fragmentária de si. Encontrou na Fotografia a própria definição da existência. Inscrevia, recorrentemente, a sua vida na sensibilidade da película fotográfica, desenhando-se com luz sobre o papel; fixando-se para sempre em alquimias químicas. O seu retrato de mil fragmentos ganhava forma, muitas vezes, no lugar da ausência dos corpos. Limitava-se a ser o vestígio de sua passagem; a imagem espectral de um percurso. Guardava, assim, a imagem da sua memória em álbuns de recordações. Escondia mil lusco-fuscos em cadernos fotográficos. Por vezes, mantinha apertadas junto ao peito as fotografias de corpos com quem partilhara uma cama ou uma escova de dentes. Nas suas gavetas habitava um etéreo material emulsionado de infinito.

Dos pequenos fragmentos de vida que se dedicava a fotografar, preservava a memória dos sítios onde comeu, dormiu, pensou, amou ou existiu. Consumia através da luz todas as sombras e é era esse o combustível da sua imaginação. Encerrava estórias, segredos e breves sussurros na imaterialidade do fotográfico… aprisionava, assim, o “ser” que lhe aconteceu e fotografava, todos os dias, o local onde as nossas mãos se tocaram pela primeira vez.

 

…O seu retrato não se esgotou nunca numa única imagem de si…

 

II – Um Retrato-Fragmento

 

A lógica evidenciada por Manuel Luís Cochofel na conceptualização de The Inner World of Valentina 170167 parte do discutível pressuposto de que um retrato não se esgota na imagem única de um “si”; podendo, pelo contrário, ser realizado através de um conjunto de imagens que evocam e, de certo modo, definem uma dada existência. Através desta exposição/instalação, Cochofel efectua a (re) criação de uma intimidade e propõe a estruturação de uma dinâmica ficcional em torno das possibilidades que constituem a Identidade e o “Ser”.

A dimensão discursiva inerente a este projecto implica, portanto, que o conjunto fragmentário e “aleatório” de fotografias que o constituem (originais do autor e apropriações trabalhadas de imagens pré-existentes) deva ser apreendido como algo que detém uma dimensão estrutural bem mais ampla do que à primeira vista poderíamos supor. Não estamos perante o retrato de Valentina, mas na presença de “um” potencial retrato composto por fragmentos que procuram evocar a vida interior de uma “personagem”.

O que sabemos, realmente, sobre Valentina? Sabemos, apenas, que não é uma ficção (de facto Valentina existe e responde pelo número 170167 de um serviço on-line onde mulheres e homens colocam anúncios em busca de um parceiro para casar). Este conjunto de fotografias lança, assim, o desafio de se produzirem múltiplos jogos narrativos em torno de uma existência. Em última análise, e permitindo, enfim, que as próprias imagens se façam “ouvir”, resta alertar para o facto de que o desenrolar desta ficção depende apenas e unicamente da interpretação de quem se detiver nas imagens e se permitir a alguns momentos de imaginação…

 

 

Mário Verino Rosado

28 de Novembro de 2008 (Santa Rita)

 

 

“Have you ever been on an adventure that goes on and on and on? With every breath you take the problems melt away and your deepest dreams desires and fantasies become more and more yours. Welcome to my reality”.

 

(Texto de um anunciante identificado)