BINARY BODIES (after Muybridge)

Manuel Luís Cochofel

Binary Bodies – After Muybridge

por Rui Effe

 

 

  São silhuetas de pontos coloridos, são pontos de uma historia. Uma historia de amor, de saudade, de mulheres energéticas de cintas estreitas pelos espartilhos; um universo onde as personagens vivem suspensas entre o doce e o acre do pontilhado. Manuel Luís Cochofel vinca as teorias da Era da Reprodutibilidade Técnica, como Walter Benjamim, no ensaio A Obra de Arte na Era da Sua Reprodutibilidade Técnica (1936), tinha referido como sendo as novas potencialidades artísticas - as reproduções.

 

  Acabou de facto, há muito, a ideia do sentido único, da unicidade que acarretava o distanciamento e que afastava o observador de qualquer objecto artístico, assim como o sentido elitista a que a teoria da imagem se predispunha. Acabou há já muito tempo a necessidade de sabermos o que é de facto nosso ou aquilo que porventura sempre pareceu ser nosso, pois, quer no sentido da construção quer pela sua reprodutibilidade, as imagens constroem-se constante e autenticamente. E como o que é autentico é a realidade vivida, as imagens são para o indivíduo novas realidades, autênticas. É a pergunta; "isto é de quem?", que torna a estética fora de qualquer circuito egoistamente de um só autor.

   Somos a favor de uma identidade própria, mas, propriamente bem reconstruída. Leia-se reconstruída.

  É a fuga ao totalitarismo de qualquer movimento ético/estético que contraria as leis enraizadas, leis de terra.

 

 Uma questão política? Evidentemente uma questão política e de dimensões democráticas ao usufruto e ao abandono do sentido da unicidade. Manuel Luís Cochofel guia-nos por um caminho, seu escolhido, como sendo uma alternativa à democratização estética. Porém, ao contrário desta defesa do mero reprodutível, o artista enfrenta o conceito da reprodução exacta e manipula os originais. As imagens, outrora de outros e dos próprios figurados, roubadas e posteriormente picadas pelo autor são repartidas, fragmentadas, ampliadas bruscamente até que pela sua trama haja a possibilidade de nelas entrar. Por si embrulhadas delicadamente, são imagens novas nascidas de velhas e usadas fotografias que foi acarinhando durante os seus passeios virtuais. Manuel Luís Cochofel adoptou-as, tornou-as suas e fez delas um elástico bem aberto. São agora imagens que, apesar de sugerirem uma trama fragilizada, pela sua provocada amplitude, não tendem a romper nem tão pouco a afastar-se do seu ente origem ou do seu corpo primeiro.

Neste mundo, de Cochofel, as figurações não são lambidas, nem polidas, nem maquilhadas por qualquer pó de arroz. As fotografias são cruas e agrestes como as pedras cristalizadas e pouco gastas de caminhos novos. Cochofel picou, à sua imagem, as imagens de Eadweard Muybridge, velhas e polidas pelo tempo como quem debica compulsivamente as pedras da calçada para que nelas não escorregue.

 

São silhuetas de pontos coloridos, são pontos e metáforas de caminhos seguros a uma realidade estética.

 

«Uma das características que mais me interessou explorar, é o isolar de cada um dos movimentos (que no trabalho de Muybridge aparece na sequência completa) tornando cada corpo no autor de um gesto que não compreendemos e temos dificuldade em imaginar como se seguirá, se terá continuação e nos deixa uma certa angústia e perplexidade que me interessa gerar. Como se houvesse uma cadência interrompida, que em música designa uma progressão harmónica que não resolve para um acorde perfeito e que nos liberte assim da tensão anteriormente gerada, mas antes nos deixa suspensos nessa mesma tensão». - Manuel Luís Cochofel

 

O projecto Binary Bodies – After Muybridge, de Manuel Luís Cochofel, esteve patente na Galeria Fábulas (Calçada Nova de São Francisco). Uma exposição Umbigo, com curadoria de Elsa Garcia e Miguel Matos.